PÚBLICO - Raquel Ribeiro
(Festa da Música, CCB)
“Revelações”
Sónia Alcobaça/ Ensemble Barroco do Chiado Profissionalismo, altíssimo nível técnico e garra interpretativa. A sua aposta no repertório “italiano” criado por compositores portugueses foi ganha de forma deslumbrante: a cantata “Quel leggiadro volto”, de Francisco António de Almeida, demonstrou até que ponto há obras históricas portuguesas que podem funcionar maravilhosamente em concerto nos dias que correm.

PÚBLICO - Teresa Cascudo

14h30
Sónia Alcobaça (soprano), Ensemble Barroco do Chiado
Obras de Mancini, Tartini, Vivaldi, Durante e F. A. Almeida
Concerto nš 80
Sala Tiepolo (173 lugares)
Lotação esgotada, com pessoas em pé
A prática da música antiga em Portugal já passou para as mãos de músicos relativamente novos que, pelo que se ouviu no concerto do Ensemble Barroco do Chiado, estão em condições de desenvolver um interessante percurso, conciliando o repertório internacional com a descoberta ou a nova abordagem de obras de compositores portugueses. No meio de uma execução de alto nível, salientaram-se o flautista António Carrilho, que foi solista no concerto de Vivaldi, o cravista Marcos Magalhães e a violoncelista Katie Rietman. Colaborou ainda com o agrupamento Sónia Alcobaça, a qual pôs a qualidade do seu timbre, o seu domínio técnico e o seu gesto expressivo ao serviço de uma cantata italiana da autoria de Francisco António de Almeida. A soprano tem-se destacado nos últimos dois ou três anos, pelo que a sua madura e empolgante interpretação confirma que o seu é um nome a reter da nova geração de cantoras portuguesas. T.C.

PÚBLICO - Alexandre Delgado
"A REVIRAVOLTA BARROCA DO CHIADO"
A Câmara Municipal de Lisboa teve a feliz ideia de fazer uma espécie de “jornadas de música antiga alternativas”: um ciclo breve mas meritório de três concertos com entrada livre, que tiveram lugar no Palácio Galveias entre 23 e 25 de Outubro, onde foi dado lugar a uma nova geração de intérpretes portugueses de música antiga, de bom augúrio. Depois do recital da cravista Ana Mafalda Castro e do concerto do grupo Foral, com programas eclécticos (que não tivemos oportunidade de ouvir), o miniciclo fechou no sábado à noite com chave de ouro. A sedutora proposta de ouvir num mesmo concerto música de Johann Sebastian Bach e de três dos seus filhos serviu para a revelação de um grupo notável, que vem enriquecer substancialmente o nosso panorama.
O Ensemble Barroco do Chiado (na foto) não é apenas “mais” um grupo de música antiga: é um conjunto de cinco intérpretes de grande qualidade, altamente especializados junto de alguns dos maiores nomes da cena mundial, mostrando desde já uma seriedade, um apuramento e uma originalidade que não podem passar despercebidos.
Desde logo na escolha do programa, notou-se o inconformismo e um critério musical apurado: este foi o programa que faltou nas Jornadas Gulbenkian deste ano. Juntando Bach com os seus descendentes, tivemos uma palpitante radiografia musical do século XVIII, do barroco olímpico do progenitor (Trio Sonatas BWV 1038 e 1040) ao inquieto pré-classicismo e delicioso estilo galante dos filhos. E este concerto mostrou bem a que ponto estes, com excepção do consagrado Carl Philip Emanuel (de quem ouvimos Sonata para flauta e baixo contínuo em Mi menor), são injustiçados: particularmente Johann Christoph Friedrich (1732-1795), o terceiro e talvez o menos conhecido dos quatro. O seu Trio em Dó Maior para flauta, violino e baixo continuo tem momentos de estarrecedora emotividade, com dissonâncias e modulações de cortar a respiração, e um revolucionário virtuosismo e autonomia da parte de cravo (ou pianoforte). Neste programa, em que também se ouviu o benjamim Johann Christian (Quinteto em Ré Maior), só faltou o filho mais velho, Wilhelm Friedemann.
Marcos Magalhães é um cravista de alto coturno, verdadeira caixa de máquinas do agrupamento: a realização livre e multiforme, a precisão e agilidade, o ímpeto voluntarioso, são características raras nesta área do panorama português. Mas nenhum dos outros lhe fica atrás -- e é particularmente estimulante a empatia entre a flauta de bisel de António Carrilho, assombrosa de espessura e expressividade, e o violino de Álvaro Pinto, primeiro violinista português a especializar-se exclusivamente no instrumento barroco, com um inesperado “aplomb” e imaginação. Joana Amorim é uma flauta transversal de tocante delicadeza e poesia, e a violoncelista americana Katie Rietman surpreendeu-nos pela sua desconcertante e adorável originalidade (a sonata para violoncelo de J.C. Friedrich Bach foi um ponto alto da noite).
As interpretações deste grupo já têm aquele toque de personalidade que lhes pode permitir, inclusive, afirmarem-se internacionalmente. Num momento em que Itália e Espanha dão cartas no mundo da música antiga, já é mais do que altura de Portugal entrar em cena.
Refira-se, a terminar, que na minúscula sala semi-circular do Palácio Galveias não cabia nem metade da pequena e entusiástica multidão que acorreu a este concerto: foi um público invulgarmente juvenil e diversificado que se acotovelou de pé e ficou espalhado pelas escadarias. Muita gente se foi embora sem conseguir entrar na sala: da próxima vez, convém escolher um espaço maior, como a sala da biblioteca de tão simpático edifício.
Este evento é exemplar do tipo de iniciativas que a Câmara deve promover, de preferência com um pouco mais de critério artístico do que tem sido hábito até aqui (este ciclo de música antiga é um caso atípico). Concertos gratuitos em locais aprazíveis, com bons intérpretes e bons programas, escolhidos de forma coerente e didáctica, são parte integrante de uma cidade saudável. É urgente retomar e perpetuar a tradição dos concertos populares (que não populistas), inclusive sinfónicos e coral-sinfónicos. As pessoas estão bem mais sedentas de ouvir música clássica do que se pensa -- e a nossa temporada oficial de concertos é demasiado intímidante (e cara!!) para muitas delas.

PÚBLICO - Cristina Fernandes
(Ciclo de Música Antiga, Gulbenkian)
Os únicos portugueses participantes (o Ensemble Barroco do Chiado), constituíram uma grata surpresa, quer pela assinalável qualidade artística, quer pelo inteligente programa, preenchido com obras portuguesas e italianas do século XVIII.